quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O "bombeiro de serviço"

No momento em que levei o pé ao travão percebi que jamais controlaria o carro. Depois de um embate forte, do airbag me ter toldado a visão e do veículo finalmente ficar imobilizado num monte de terra, abri a porta em pânico. Enterrei os pés na lama e a chuva mal me deixava ver as teclas do telemóvel. Liguei para ele, o tal, aquele por que esperei tanto, tanto. Não é um OD - Objecto Distracção - é o meu namorado (Adoro dizer "o meu namorado"!). Ele veio a voar até ao local do acidente, mas quando chegou já alguém havia chamado os bombeiros. O corpo dele contra o meu num abraço apertado fez-me saber que estava tudo bem. Não me doía nada, mas um dos bombeiros fez questão que eu entrasse na ambulância. Ora se isto não fosse uma crónica da Maria Diná, eu teria ido para o hospital, depois de vários exames e de um diagnóstco favorável, o médico ter-me-ia dado alta e eu teria continuado a minha vida. Pois que não foi tão simples... O "bombeiro de serviço", chamemos-lhe assim, era um tipo da minha idade que após algumas questões arranjou logo imensos pontos em comum. Minutos depois de me imobilizar numa maca com uma colete na cervical e 300 cintos e correias a prender-me, e de eu me sentir uma sardinha numa lata de conservas, lá arranjou maneira de me elogiar, de dizer que eu era muito corajosa e bla bla bla, e às tantas meteu-me no bolso um papelinho com o seu número de telemóvel. Já eu estava no hospital e o "bombeiro de serviço" não arredava pé. O meu namorado tinha ficado no local do acidente a tratar das burocracias do reboque, e a criatura à cabeceira da minha maca à espera do resultado dos exames era nem mais nem menos que o "bombeiro de serviço". Depois de alguma insistência da enfermeira ele lá se foi embora, mas não sem antes me dizer: "Se precisares de alguma coisa, liga-me!" Pois, o "bombeiro de serviço" tratava-me por tu, vá-se lá saber porquê. Felizmente no hospital disseram-me que estava tudo bem, tirando uns arranhões, e o susto que me viria a tirar o sono nas noites seguintes, e eu rumei a casa. Dias depois fiz uma ronda pelas pessoas que pararam no local do acidente. Liguei a agradecer o apoio. E claro liguei para o "bombeiro de serviço". A personagem mostrou-se muito querida e no meio da conversa sugeriu que o adicionasse ao facebook. Eu, ingénua, lá mandei o convite. Foi o início do pesadelo. A criatura metia conversa a toda a hora, e como ficou com o meu número de telemóvel ligava a toda a hora, mesmo nos horários mais inconvenientes. Contou os seus dramas, e a falta de compreensão da sociedade para consigo. Da namorada que o traiu. Dos colegas da corporação que o odiavam. E etc, etc, etc. Uma noite ligou-me num pranto, a dizer que era um incompreendido e a perguntar-me onde eu morava. Expliquei que estava no aeroporto a embarcar para Madrid numa viagem de trabalho e não sabia quando voltava. Eu tive um acidente, eu tive um trauma, eu tive um drama... Dá para o bombeiro que me socorreu não me usar como psicóloga?! E melhor, dá para não se fazer a mim?! Será que a criatura não se lembra, era o meu namorado que estava comigo no local do acidente? Bloqueie-o no facebook e não voltei a atender os telefonemas. Mas ainda há dois dias ligou insistentemente. Se o "bombeiro de serviço" por esta altura ainda não captou a mensagm, está na hora de eu activar as minhas medidas de emergência e colocá-lo no lugar dele!

A história continua...

Passaram quase nove meses desde que escrevi neste blogue pela última vez. As Crónicas da Maria Diná nasceram de uma conversa divertida entre duas amigas que tinham muito em comum. Hoje não se falam. Neste período em que não escrevi continuei a viver as mesmas peripécias de sempre, a sorrir e a rir com o muito que me aconteceu. A trintona solteira tem afinal 29 anos, encontrou um grande amor e mudou muito o seu estilo de vida. Nos próximos tempos prometo que a Maria Diná voltará a escrever as suas crónicas e a contar aqui os momentos mais hilariantes da sua vida, agora com um pouco mais de realismo! A história continua...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Homem em chamas

Que eu me tenha em boa conta é uma coisa. Que um homem entre em combustão por minha causa, é outra. Conheci-o meio por acaso, depois percebi que até tinhamos amigos e comum, e lá decidi dar a mão à palmatória. É giro e tem boa conversa ao telefone, por que não aceitar o convite para sair? Vesti-me a preceito: mini-saia, top e saltos altos. Fiz caracóis no cabelo e passei um baton vermelho forte nos lábios. Já diz o velho ditado que no amor e na guerra vale tudo, e para uma trintona o que não faltam são 'inimigas' nesta guerra, sempre dispostas a atacar o nosso alvo. À hora marcada saí do meu carro e entrei no dele. O discurso coerente que lhe conhecia do outro lado da linha acabava de transformar-se numa gagez estranha. “O tipo ficou todo atrofiado por me ver de mini-saia”, pensei com os meus botões. Entrámos na discoteca. Àquela hora poucos clientes ainda tinham chegado para um pezinho de dança. Tirei o casaco e ele fez o mesmo. Mas estava tão concentrado a olhar para o meu decote que nem viu onde deixou o dito. De repente mesmo ao lado dele começo a ver uma chama, que rapidamente se transforma em labaredas. Olho à volta e vejo velinhas em cima das outras mesas. “Meu Deus! Ele pousou o casaco em cima da vela!” Fiquei inerte e não conseguia expressar-me. Queria gritar, tentar abafar o fogo, mas simpelsmente não conseguia. O cheiro a queimado começava a subir-me pelas narinas e a deixar-me enjoada. Ele parecia estar numa outra dimensão. Continuava a olhar-me o decote generoso indiferente ao incêndio que acabava de originar. De rompante consegui levantar-me e balbuciar qualquer coisa. Ele em pânico, quando finalmente se deparou com o cenário, atirou às labaredas a bebida que tinha na mão: Vodka limão. Drama, drama, drama. Álcool, álcool, álcool. As chamas aumentaram subitamente! Até que um empregado nervoso accionou finalmente um plano de combate ao incêndio: usou um extintor! Em menos de um minuto as chamas desapareceram e do casaco sobrou um bocado de pano com dois grandes buracos. Começámos a rir, eu e ele, como se estivessemos a ver um espectáculo muito bom de stand up comedy. Não sei se dos nervos, se do pânico, se da situação caricata, as gargalhadas sucediam-se de tal forma que cheguei a verter umas lágrimas. Que eu seja uma brasa, muito que bem, mas daí até fazer um homem arder vai uma grande distância. Mas o que é certo é que o ambiente naquela noite aqueceu, e de que maneira!

16 de Janeiro de 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Tarefa (quase) impossível

O pedido era simples: “Maria tens de conseguir a primeira entrevista exclusiva!” Gosto quando me pedem trabalhos quase impossíveis com a naturalidade de quem pede um café ao balcão.“Pois claro, cheio e em chávena quente”, disse em voz alta enquanto desligava o telefone. Já passava das 23h00 e a minha primeira tarefa era descobrir a morada do tal entrevistado e de preferência chegar a casa antes dele para a abordagem ser imediata e sem aviso prévio. Assim em jeito de bala certeira para derrubar o alvo no primeiro embate. Ora precisava de um carro e de companhia para esta demanda da casa escondida. Após algumas tentativas lá arranquei duas almas caridosas do recanto dos seus lares e partimos para a acção. Eu de bloco em riste no lugar do pendura ia dando indicações. “Vira à direita. Contorna a rotunda. Sai na próxima saída.” Na verdade sentia-me mais perdida do que um cego no meio de um tiroteio. “Maria, não fazes a menor ideia de onde estamos não é verdade?”, atirou ao ar o meu amigo motorista. O outro no banco de trás começou a rir compulsivamente até que soltou: “Vá lá Maria diz a tua célebre frase 'gosto de me perder para depois me encontrar'. Este é o momento ideal.” Com o relógio a dar meia-noite o céu fechou-se num breu profundo. Começou a chover, a chuva transformou-se em chuvada e nós já mal víamos a estrada à nossa frente. Decidimos parar ao lado de um taxista. “Boa noite, sabe dizer-me onde fica a rua X?”, perguntei eu sorridente. “Ehhhh isso é daqueles sítios maus para onde nós não vamos. Olhe e a menina com esse ar também me parece que não quer ir para lá”, disse em tom jocoso o senhor ao volante. Fechei o vidro. “Tens as portas trancadas?”, murmurei para o meu amigo. “Tenho”, respondeu. “E temos gasolina no carro?”, acrescentei. “Temos.” O cenário colocado assim já não parecia tão mau, afinal se precisássemos de fugir a toda a velocidade tínhamos boas hipóteses. Depois de mais uns quantos quilómetros encontramos um homem numa paragem de autocarro. “Desculpe, sabe onde fica a rua X?”, voltei a perguntar já com um ar cansado. “Não. Não faço ideia. Mas deve ser naquele bairro manhoso perto dos bombeiros”, atirou. As palavras “bairro manhoso” não saíam da minha cabeça, mas eu continuava disposta a conseguir o meu objectivo. Voltas, voltas e mais voltas depois, não tínhamos encontrado nem bairro, nem bombeiros, nem vivalma naquela que parecia ser a terra de ninguém. Chovia agora menos e eu avistei um homem ao longe no passeio. “Encosta ali à frente. Aquele senhor talvez ajude”, soltei credível. A menos de um metro do homem paralisei. “Filipe, é o homem da paragem de autocarro! Começo a ficar assustada. Não há pessoas nestas terra a não ser este homem! Vamos embora...”, sussurei para o meu amigo motorista. “Está ali o quartel dos bombeiros”, apontou ele. Entrámos no bairro, que afinal não era tão “manhoso” e encontrámos a casa. Minutos depois um táxi parava à porta com o meu entrevistado. “Eu não conheço a sua cara de qualquer lado?”, disse ele para mim. Percebi que a entrevista exclusiva estava garantida.

09 de Janeiro de 2011

2010: o ano do Tigre

Nos últimos dias de Dezembro é impossível não fazer um balanço do que se passou nos últimos 12 meses. Dos amores aos desamores, das amizades às inimizades, passando pela saúde e pelo trabalho há muita coisa que ficará na memória da Maria Diná pelos melhores e pelos piores motivos.
Continuo sem perceber os homens. O ano começou com um amor platónico e assim seguiu pelos meses seguintes até que me apercebi de que os lindos olhos castanhos e o porte atlético que me fizeram fantasiar noite após noite pertenciam a um 'menino' que está mais virado para a homossexualidade do que para a heterossexualidade. Quero acreditar que em 2011 esteja reservado um exemplar masculino à minha altura, ou de preferência mais alto, que eu gosto de usar saltos. A depilação está feita e as unhas dos pés arranjadinhas para qualquer eventualidade. Sim, que estar solteira não é sinónimo de me me ter transformado num camafeu!
Nasamizades livrei-me de uma 'anaconda'. Os amigos eram poucos, agora há menos uma. Mas os que cá andam são para ficar, espero eu. Perdi a paciência para facadas nas costas, fofocas e histerismos femininos.
No trabalho mais do mesmo. Mudei de emprego, para um basicamente igual. Aumento não há, apenas de trabalho. Continuo a chegar atrasada e a ouvir as lamentações do chefe. Tenho mais olheiras, ando mais cansada, tenho férias e folgas por gozar e um colega sem dois dentes que teima em lançar-me o seu charme. Perdi a conta à quantidade de pessoas que conheço a quem faltam dentes. Parece-me que se tratou de uma espécie de epidemia em 2010!
Euzinha envelheci um pouco. As primeira rugas despoletaram à volta dos olhos, mas graças a Deus que existe base, tapa-olheiras, iluminador e outros elementos indispensáveis em qualquer bolsa de maquilhagem feminina. O resto do corpinho continua 'firme e hirto' e não fosse uma maldita gastroenterite, este ano nem tinha visto as instalações de um hospital.
E pronto, depois do balanço é tempo das resoluções. Em 2011 quero um homem e dava-me jeito não recorrer a um acompanhante de luxo, que a conta bancária bateu no fundo com os presentes de Natal. Quero um emprego novo, um daqueles que me realize e de preferência que me faça tirar a corda da garganta com um ordenado exorbitante! Quero manter o meus amigos e conhecer pessoas novas. Em 2010, ano do Tigre, não meti as garras de fora. Mas em 2011, ano do Coelho não me peçam para ser fofinha!

25 de Dezembro de 2010