sábado, 25 de dezembro de 2010

A campaínha que não parava de tocar

Há dias assim... Parece que abrem a porta do hospital dos malucos e lhes dão a morada de minha casa como se eu fosse a cura para todos os males. Cheguei a casa estafada depois de um dia intenso de trabalho. Só precisava de tomar um duche rápido, pôr uma roupinha com classe e um toque de maquilhagem. Mas a campainha da porta de casa tocou “Mas quem é que abriu a porta da rua outra vez?”, pensei. Olhei pelo buraco e vi um adolescente com a cara a rebentar de borbulhas. “Pois não?”, atirei-lhe seca. “Sou da empresa x e estou a fazer um inquérito para saber se está satisfeita com a sua televisão por cabo?” Pois claro... E a hora de jantar foi a melhor opção para me enervarem. Recorri à minha estratégia habitual para me livrar deste tipo de abordagem. Coloquei-lhe a mão em cima do ombro e soltei: “Ainda bem que cá veio, sinto-me tão sozinha, a precisar de falar. A minha vida é um desespero, ando a tomar antidepressivos...” Em menos de dois segundos a criatura arredou pé. Mas ainda mal eu tinha fechado a porta e a campaínha voltou a tocar. “Ai o raio do miúdo...”, disse entredentes enquanto agarrei o puxador. Do lado de fora duas velhotas. As mesmas de sempre. As que eu vejo pelo visor da campaínha na porta da rua e nunca deixo entrar no prédio. “Boa noite. Somos testemunhas da religião y e vimos falar consigo sobre o Mal”, explicou uma delas. O Mal? Mas qual mal? Mal estão a fazer-me estas alminhas que eu já estou super atrasada. Recorri a outra estratégia. Mostrei-lhes o mal! “Pois... Eu ando muito stressada. Desde que virei actriz de filmes pornográficos que não tenho tempo para nada. São dias e dias envolvida em cenas de sexo. E há posições que me dão cabo do corpo...” Nem me deixaram continuar nesta divagação. Apanharam o elevador sem olhar para trás. Curiosamente do outro elevador saiu uma personagem que mais parecia ter-se teletrasportado do passado. Bigode farfalhudo e a falha de um dente. “Boa noite”, disse aquele desastre de homem. “Boa noite. Diga se faz favor”, respondi. “O chefe de família está?” O chefe de família? Mas este vive em que planeta.? “Está sim, está a falar com ele. Diga...”, rosnei com tom irónico. “Olhe minha senhora eu precisava mesmo era de falar com o seu marido”, insistiu ele. Bom, já que hoje me escolheram para chatear lá vamos nós outra vez: “Olhe marido não tenho, tenho mulher. Sou homossexual. Mas se quer tanto falar com o chefe de família, sou eu.” O senhor bigodaças mudou de cor, arregalou os olhos e gritou: “É por estas e por outras que este país não anda para a frente!” E virou costas. Eu finalmente entrei em casa e tranquei a porta. Decidi que não a abria a mais ninguém. O telemóvel tocou e o meu acompanhante para jantar estava já à minha espera. E eu ainda nem o duche tinha tomado...

19 de Dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Ouvidos de penico

Ser solteira e disponível parece ser a definição que os amigos encontram no dicionário para "ouvidos de penico". Ora esta bela expressão demonstra nem mais nem menos o facto de despejarem para dentro dos meus belos ouvidos as maiores lamentações da humanidade, envoltas numa grande dose de porcaria. "Ela nem tem o que fazer... Ela está em casa sozinha... Ela está sem companhia... Por que não ligar-lhe e descarregar em cima dela todos os dramas que me atormentam?”, devem ser estes os pensamentos que lhes passam pela mente antes de marcarem o meu número no telemóvel. Juro que quando olho para o visor do telefone e vejo que a chamada já excedeu uma hora me apetece simplesmente desligar o aparelho e fingir que caiu. Bom, até já tentei, mas não resulta! Invariavelmente ligam de volta e o azedume continua. Ora é o namorado que a deixou pendurada e foi de fim-de-semana com os amigos, ora é a ex-mulher ou a ex-namorada que veio atormentar o belo casal, ora é o ex da ex que andou com outro ex, que às tantas perco a conta e limito-me a responder "pois"..."claro"... "compreendo"... E, na verdade já nem sei do que estão a falar.
Depois, e como se não bastasse a dejecção para os meus ouvidos sobre os seus dramas começa o leque de sugestões do que eu devo fazer para abandonar essse rótulo que eles mesmo me colocaram de solteitona. “Não te esforças o suficiente para arranjar namorado!” Como se eu tivesse de me transformar numa espécie de atleta olímpico em competição para arrecadar esse grande prémio que é um exemplar masculino disponível. “Usas pouca maquilhagem.” Eu? Pouca maquilhagem? Mas é suposto paracer um palhaço para os homens olharem para mim? “És muito esquisita.” Prefiro dizer que sou selectiva! Marrecos, coxos, desdentados, pouco inteligentes, sem pingo de humor, e sem noção do que é ser cavalheiro não estão na minha lista de requisitos, é um facto. “Tens de sair e descontrair.” Acho que o problema é precisamente o contrário, saio muito, conheço muita gente pouco interessante, exagero no álccol, descontraío demais e digo o que devo e o que não devo! Por favor poupem os meus ouvidos.
Caros comprometidos desta vida, lanço aqui um repto: não atormentem quem está livre. Eu estou sem namorado mas não quer com isto dizer que não tenha vida. Pode simplesmente apetecer-me estar a mofar em frente a uma televisão, embrulhada numa manta ridícula, em vez de vestir a pele de psicóloga, e agradecia um bocadinho de compreensão nesse sentido. Por via das dúvidas vou desligar o telemóvel por umas horas....

12 de Dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

Num casamento...

Uma grande amiga casou. Casou e estupidificou... Pelo menos é a única justificação que encontro para tanta 'pirosada' junta. A Rita era uma pessoa normal, sempre gostou de coisas discretas e sempre disse que havia de ter um enlace simples. Por isso, quando vi o vestido de noiva confesso que fiquei indecisa entre um ataque de choro e um ataque de riso! De repente a Rita deixou de ser a noiva e estava transformada no bolo de noiva. Folhos, rendas, pérolas e outras variantes de apliques transformaram uma peça de roupa única numa aparatosa indumentária digna de um Drag Queen. E a juntar a isto um penteado ridículo a fazer lembrar Maria Antonieta! “Estás muito bonita!”, soltei com o sorriso mais cínico que consegui. Ela começou a chorar... Por momentos acreditei num rasgo de lucidez e pensei que ela trocaria o vestido de Carnaval por um dos muitos vestidos giros que sei que tem pendurados no armário. Mas não... “Estou a chorar de felicidade!”, explicou ela. “Tudo bem... Prossigamos... Que este dia vai ser animado... Ainda bem que nos casamentos o álccol abunda!”, pensei.
Depois de um verdadeiro desfile de horrores na Igreja com um grupo de conviados que parecia acabadinho de sair de um filme mau dos anos 80, seguiu-se o copo d'água. “Não acredito!” Arregalei os olhos, olhei e voltei a olhar... O meu maior pesadelo estava ali à minha frente. Uma pindérica qualquer – descobri depois que era prima do noivo – tinha um vestido igualzinho ao meu. Quer dizer, dois tamanhos acima! Mas igual!!! “E agora? Vou ao hotel trocar de roupa.” A ideia mal teve tempo de me passar pela cabeça quando um bando de miúdos irritantes já gritava a plenos pulmões: “Elas têm vestidos iguais! Elas têm vestidos iguais!” “Se não podes vencê-los, junta-te a eles”, pensei, largando um sorriso amarelo. Bebi um copo de vinho tinto quase de um gole só.
Ainda pouco confortável comecei à procura do meu lugar. “Está acompanhada?”, perguntou um dos empregados de mesa. “Não”, respondi. “Então é das solteiras?”, disse ele. “Digamos que estou a manter as opções em aberto”, ripostei. “Então o seu lugar é na mesa das solteironas”, atirou-me como um balde de água fria enquanto apontava para a mesa onde já se acomodava um grupo. “Só faltava colar uma placa nas costas das cadeiras a dizer 'rejeitados pela sociedade'”, pensei. Cumprimentei as 'crituras' que padecem da mesma 'doença' que eu – a solteirice aguda – e bebi outro copo de vinho tinto. E outro, e outro, e outro ao longo do jantar, até ter chegado o momento mais aguardado da noite pela ala encalhada. “A noiva vai atirar o bouquet!”, gritou uma quarentona eufórica enquanto atropelava quem se atravessava no caminho. Permaneci sentada. O álcool e o sangue já cohabitavam amigavelmente no meu corpo e levantar-me não era opção!

04 de Dezzembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O pneu, o macaco e as porcas...

Nunca a lei de Murphy ecoou tão alto dentro da minha cabeça. O despertador não tocou porque falhou a luz, não encontrava as malas de viagens e acabei por atirar o que encontrei na primeira gaveta que abri para dentro de um saco de ginásio, bati a porta e entrei no carro a toda a velocidade. A chuva miudinha toldava-me a visibilidade e eu sonhava com a primeira estação de serviço para poder levar à boca um café duplo. Missão: chegar a horas do almoço em família para não ter de ouvir pela milésima vez as conversas das tias chatas: “Não tem filhos nem marido, é uma irresponsável. Nunca chega a tempo aos compromissos de família.” Quase a furar o chão do carro, estilo Flinstones, de tanto carregar no acelerador, fui acordada com um estrondo monumental e um guinar do volante. “Não acredito nisto!” Encostei na berma e liguei os quatro piscas. Assim que saí do carro o frio cortante da manhã agarrou-se ao meu corpo. O aroma da terra molhada misturava-se agora com o cheiro de um pneu queimado. “E agora?” O cenário era no mínimo assustador: tirei o saco do ginásio e olhei para aqueles objectos que pareciam ter vindo do espaço: “Como é que eu vou trocar um pneu?” Agarrei no telemóvel e liguei para o número da assistência em viagem. “Bla, bla , bla. A asssistência não assegura a troca de um pneu, só é activada no caso do carro ficar imobilizado”, explicou a senhora da voz irritante do outro lado da linha. “Então e acha que o carro não está imobilizado? A não ser que o carregue às costas, não consigo pô-lo em movimento. EU NÃO SEI TROCAR UM PNEU!”, gritei em desespero. De pouco adiantou, porque ela começou a repetir exactamente o que tinha dito. “Ok, respira fundo Maria e pensa noutras opções.” Liguei para um amigo. “João, estou na auto-estrada com um pneu furado e preciso de ajuda...” Resposta do João: “Já tens o colete de sinalização vestido? E o triângulo montado? Estás fora da viatura? Tens os quatro piscas ligados?” É por isso que um homem faz tanta falta na vida de uma mulher! Vesti o colete, uma peça de vestuário que precisa urgentemente de ser revista porque está algures entre o horrível e o medonho, já para não falar do tamanho. Abri a caixa do triângulo e petrifiquei. “Mas isto não vem montado?” Depois de algumas tentativas coloquei o dito a 30 metros do veículo. “Agora tens de encontrar o macaco e a chave de porcas”, explicou o João. “Macaco e porcas? Mas eu abri a bagageira do meu carro ou a Arca de Noé?” Já estava prestes a desistir e mostrar as pernas ao primeiro condutor que passasse quando uma carrinha da assistência na auto-estrada parou. O técnico trocou o pneu em menos de dois minutos e desejou-me boa viagem. Eu nem queria acreditar! Afinal senhor Murphy, nem tudo pode correr mal... Bom, foi o que eu pensei antes de começar a ouvir as tias no almoço de família...

27 de Novembro de 2010

domingo, 28 de novembro de 2010

A magia do primeiro amor

Encontrei o meu primeiro amor, assim do nada, sem aviso prévio, sem anúncio das mudanças que aquele jovem lindo, de olhos verdes e corpo escultural sofreu nos últimos anos. Estacionei o carro mesmo em frente à padaria e saí a correr tentando evitar as gotas chatas da chuva miudinha. Choquei contra um homem e reconheci-lhe o perfume e a voz quando me pediu desculpa. E foi só isso que reconheci. O cabelo loiro deu lugar a uma cabeça careca e luzidia, os olhos verdes esconderam-se por trás de uns óculos de 'nerd' e o corpo escultural foi substúído por uns pneus assustadores! “Bruno?”, soltei eu num misto de dúvida e certeza. “Sim”, respondeu ele com cara de quem nunca me tinha visto na vida. “Sou eu, a Maria Diná!'” Os olhos dele esbugalharam-se e depois abriu um enorme sorriso... e mostrou falta de um dente. “Estás tão bonita!”, disse ele com um tom de admiração. “Tu estás... diferente. Continuas simpática”, consegui tirar do fundo das entranhas. 'Diferente' e 'simpático' são invariavelmente os adjectivos que costumo usar para definir pessoas feias e gordas e naquele momento eram estas únicas duas palavras que me percorriam o cérebro. Dei por mim em poucos segundos a pensar nas juras de amor que tinha feito àquele homem atrás do pavilhão de desporto do liceu. Imagine-se que tinhamos ficado “juntos para sempre”... Só me ocorria agora estar com ele na cama e ter de lhe pedir: “querido tira o rabo do travesseiro”de tão careca que ele está. Ainda bem que a adolescência é aquela fase das incertezas e que o que queremos num dia no outro não nos satisfaz. Eu estava perante o exemplar masculino a quem dei o meu primeiro beijo e com quem sonhei casar e ter filhos, e a realidade mostrava-me agora a falta de um dente na sua boca! Depois de uma troca de palavras que incluem as perguntas básicas do tipo “o que tens feito?”, “onde tens andado?” e “trabalhas em que área?”, eis que chega a pergunta mas temível por qualquer solteira trintona... “Então e já casaste?'” Expliquei que não, que não tenho marido, companheiro, namorado, nem nenhuma outra ligação de compromisso a um homem. Ele por sua vez resolveu apontar para o seu carro estacionado ao lado do meu e dizer que a mulher e os filhos lá estavam. Não deu para evitar a chuva miudinha e lá fui cumprimentar a 'família feliz'. A mulher com cara de frete gritava a plenos pulmões para a criancinha mais velha parar de saltar. O bebé chorava ranhoso enquanto se contorcia na cadeirinha. Depois de me apresentar como 'a minha primeira namorada' eu fui observada de forma fulminante por uma personagem estranhíssima com o cabelo preso no alto da cabeça com uma mola cor-de-rosa e uma camisola cheia de borboto. Esquivei-me dali o mais rapidamemente que pude e até me esqueci de comprar o pão. Na minha cabeça só ecoava o provérbio 'antes só do que mal acompanhada'.

20 de Novembro de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Em busca de um 'objecto de distracção'

Não há nada melhor para curar uma desilusão amorosa do que um 'OD' – Objecto de Distracção. Li isto algures num livro de auto-ajuda para solteiras que uma amiga me deu em último recurso depois de eu ter acabado com o stock de lenços de papel de tanto chorar no regresso da minha viagem de férias. Se a autora do livro acha que sim e a minha amiga também, quem sou eu para contrariar? Vesti a minha melhor mini-saia, top reduzido, e endireitei-me em cima de uns vertiginosos saltos altos. Missão da noite: arranjar um 'OD'. Horas depois de ter dado início à triagem encontrei um candidato à altura: engenheiro civil, solteiro, na casa dos 30, com boa aparência. Perfeito! Trocámos números de telefone e dois dias depois o telemóvel tocou. Uns minutos de banalidades, risinhos parvos e vozinha de sedução e eis que ele me convida... Não para sair... Mas para fazer arborismo! Confesso que a característica número um do meu signo - a impulsividade – veio toda ao de cima. “Mas que raio é isso?”, perguntei em tom jocoso. Ele num tom calmo de professor da escola primária na primeira lição, explicou: “É um desporto radical em que atravessamos plataformas entre árvores, como escadas em corda, pontes supensas...” Portanto, e fazendo o ponto da situação: O cavalheiro acaba de me convidar para eu vestir a pele de Tarzan do século XXI mas em vez de me agarrar a uma liana, salto de árvore em árvore com cordas!!! Será que por ventura ele terá reparado no tamanho dos meus saltos na noite em que nos conhecemos, ou no tipo de indumentária que me cobria o corpinho? Eu não estava descalça, não trazia vestida uma tanga e não grunhia “Me Tarzan, you Jane”! Lá expliquei ao possível 'OD' que não era muito dada a desportos radicais, e que um convite para tomar café seria perfeito... Ele não pareceu ter levado a peito esta minha retirada estratégica do programa do arborismo e aceitou o MEU convite para sair. À hora marcada estava na minha morada. Chovia torrencialmente. Assim que abri a porta do carro dele a primeira coisa que e me disse foi: “Deixa o guarda-chuva lá atrás, mas no chão para não molhares o carro todo”. “Olha boa tarde para ti também e já agora se calhar é melhor voltar a entrar no meu prédio”, pensei comigo mesma. Mas estava tão empenhada em fazer do engenheiro o meu 'OD' que entrei no carro. O café revelou-se um pesadelo! Entre muitas barbaridades referiu-se a Silvio Berlusconi como presidente de Itália e para terminar a sessão em beleza, abriu a carteira e exibiu um monte de notas mas nem uma moedinha deixou de gorjeta. Distracção não faltou neste primeiro e último encontro!

14 de Novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

És um homem ou és um rato?

Não estivesse eu na casa dos 30 e já tivesse passado por algumas relações e acabaria na ala de psiquiatria de um qualquer hospital para malucos. Dei por mim parada em lingerie em frente ao espelho a avaliar o que via. Ora que não é para me armar em manequim da Victoria's Secret, mas também não sou nenhum camafeu, por isso e por mais que me digam “tens de aprender a lidar com a rejeição”, lamento mas não tenho. Uma mulher, digo eu, nunca deveria ser rejeitada! Mas vamos por partes. São 04h00 algures numa ilha do Golfo da Tailândia. O suor corre-me pelo corpo como o leito de um rio apressado em direcção à foz. Suspiro, contorço-me na cama, penso e repenso na atitude a tomar... De rompante entro na cama dele. Ele, é o meu ex, o tal que se “colou” à minha viagem de férias. O tal a quem a minha ex-melhor amiga (traidora!) decidiu seduzir durante a minha viagem. O golpe, chamemos-lhe assim, talvez tenha sido baixo, mas que tinha eu a perder? Tudo naquele país cheirava a sexo, eu sentia-me numa guerra com a minha ex-melhor amiga, e na hora de entrar na batalha gosto pouco de preliminares e avanço com a artilharia pesada! Avancei... e imagine-se... ele mal se mexeu. Pior, sentiu-se ameaçado. Encolheu-se, virou-se de lado e segurou a minha mão com medo que cinco safados dedos irrompessem em território interdito! Senti-me um bicho-papão daqueles das histórias de encantar a atacar a pobre menina indefesa. A única diferença é que a “menina indefesa” tem 30 anos e e foi em tempos um 'macho-man. Mas afinal, no passado, eu namorei com um homem ou com um rato? Ora Maria Diná aperaltou-se com uma camisa de noite tamanho “para lá de pequeno” e vestiu uma lingerie ainda mais reduzida e o senhor nem sequer quis ver de perto? Pois bem sei que levantar suspeitas sobre a performance sexual de um macho latino é o pior que uma mulher pode fazer, mas depois de tal atitude não me contive. “És um gay! Repensa a tua sexualidade! Nunca estive na cama com alguém tão fraco!”, atirei-lhe. Ele de tão ofendido não me fala. Eu na verdade penso que ele nada mais diz porque não há argumento que valha na justificação de tal falhanço. Acredito que os exemplares masculinos com quem “privei” na minha vida até então não eram máquinas, mas o que é certo é que nunca nenhum deles me deixou “sozinha a cantar um dueto”. Como diz o velho ditado... “Há sempre uma primeira vez para tudo”. Pois há... Mas não me peçam para aprender a lidar com a rejeição!

06 de Novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

Da geração (sem) contacto

Disse-me em tempos um professor de Filosofia do liceu – agora chamam-lhe ensino secundário e eu sinto-me uma velha! - que eu estava desenquadrada da geração onde tinha nascido. Explicou-me ele que as pessoas nascidas nos anos 80 faziam parte do que ele designava de “geração contacto”, que as pessoas da minha idade saltavam para o colo umas das outras, que se tocavam por tudo e por nada e que não precisava de haver um motivo para se enrolarem uns com os outros. Ora passaram pelo menos 15 anos até eu perceber que estou de facto “fora do contexto”. E fiz esta bela descoberta, imagine-se, na Tailândia. Na mala levei... o biquini... o protector solar... repelente... ex-namorado... e... uma amiga traidora.... Pois é, Maria Diná – euzinha - deve ser a única mulher no mundo capaz de juntar na mesma viagem um ex-namorado e uma “grande” amiga e acreditar que o cliché da “melhor-amiga-que-vai-tentar-comer-o-teu-ex” não vai acontecer! Assim que o avião aterrou em Banguecoque e entrámos no táxi começou a descoberta da “geração contacto”. Euzinha mal tocava no ex, porque nesta coisa da proximidade com o ex é melhor não dar ideias se não queremos ter de passar à prática. Ela por sua vez passou todas as fases do platónico e saltou logo para a parte prática, mais concretamente para o contacto, e o tal “saltar para o colo e tocar por tudo e por nada” passou a soar-me a sirene dos bombeiros sempre a que a dita amiga se aproximava do ex. Ora comer do prato dele, beber do copo dele, gostar do que ele vestida, do que ele calçava, do que ele tossia, do que ele espirrava... eram – imagine-se! - “coisas da minha cabeça”, porque ela coitadinha não “fez nada com intenção” e só me “queria proteger” pois percebeu que “ele já não estava interessado” em mim. Eu posso estar fora da “geração contacto” mas felizmente ainda estou por dentro das minhas capacidades cognitivas e inteligência ainda é coisa que não me falta! E, diz a Regra Número Um do universo feminino que namorado de amiga, ex-namorado, marido, ex-marido, companheiro, ex-companheiro, possível namorado, ex-possível namorado, e outras variantes de relacionamento ligadas a uma amiga significam que o exemplar masculino em questão está fora do mercado! Fora, fuera, out! Por isso, e porque acho que para bem das mulheres do mundo há mensagens que não devem ficar por passar, resolvi passar a fazer parte da “geração contacto” e expressar à amiga traidora como actua Maria Diná no terreno...

21 de Outubro de 2010

A massagem chinesa

Tinha dores no corpo e na alma. Decidi fazer uma viagem para me esquecer dos problemas, mas na verdade levei o maior de todos eles na mala: o ex. Como eu estava para amar e ele não - vá-se lá saber porquê! - achei que uma massagem era exacatamente o que me estava a fazer falta, ao corpo e ao ego. Aconselhada por uma amiga chego ao destino. O inglês do funcionário é básico, e eu confesso que faltei às aulas de mandarim e cantonês. “Man or Woman?” Como assim? Então não se vê logo que sou uma menina? Graças a Deus ainda tenho um corpinho sarado e dois palminhos de cara! Após largos minutos, muitos gestos e vários tons acima do meu tom de voz normal, lá atingi o cerne da questão. Pois que quero um homem massagista, mas já agora que seja meiguinho! Oferecem-me um chá e convidam-me a deitar na mesa de massagem, uma daquelas com o buraquinho para colocar a cara. Nunca gostei que estranhos me tocassem e muito menos que eu não pudesse ver o que me estavam a fazer... Estava eu entretida nestes pensamentos, quando um cotovelo me atingiu a zona do pescoço sem dó nem piedade! Seguiu-se uma verdadeira tareia. Mãos, punhos cerrados, cotovelos. A dor era muita, a sensação de relaxamento era igual zero! E quando os senhor massagista me pegou pelos pés e me começou a fazer rodopiar pensei em levantar e... vá... começar a correr e a gritar, que eu não sou uma mulher violenta! Então eu vou fazer uma massagem para desanuviar e batem-me. Isto só pode ter sido encomendado pelo ex! Quando me virei de frente as coisas acalmaram. O senhor massagista começou a colocar-me umas pedras quentes no rosto até que parou e soltou um “ahhhhhh”. Abri os olhos e vejo o senhor massagista e mais três jovens (senhoras) de traços muito orientais com uma expressão de admiração. O que terá sido agora? Uma delas agarra-me as pestanas do olho direito e sorri. Pede às outras para tocarem. Tenho agora quatro estranhos abismados com as minhas pestanas a menos de 20 centímetros. Digamos que 20 centímetros é aquela minha margem de segurança em relação a estranhos, os tais que não gosto que me toquem. Na verdade as minhas pestanas são compridas mas eu aplico aquela coisa maravilhosa chamada máscara, indispensável em qualquer estojo feminino de uma ocidental. Ainda tentei explicar que aquele aparato todo à volta dos meus olhos não era assim tão natural, mas acho que a mensagem não passou. Abandonei o local já com nódoas negras nas pernas - “porque sou demasiado sensível”, são palavras do ex – e pronta, pelo menos achava eu, para lidar com o resto da viagem. Achava eu... Estávamos no terceiro dia e a “telenovela” estava apenas a começar...

23 de Outubro de 2010

Operação de charme

A noite já ia longa e o cansaço era muito. O vestido estava colado ao corpo pelo suor, o penteado há muito que se havia desmontado a parecia ter dois rottweilers a morder-me os pés. Sentada no conforto do meu carro só tinha um objectivo: chegar a casa o mais rapidamente possível. Por isso, quando de repente vi acender a luz vermelha do semáforo olhei para a esquerda e direita e como não vi qualquer presença de um agente da lei segui o meu caminho. O semáforo seguinte voltou a fechar e aí senti-me na obrigação de parar, que eu até nem sou mulher de infringir a lei e, uma vez tudo bem, mas duas já é um abuso. Assim que coloquei o pé no travão alguém bateu na janela. De pé, com cara de poucos amigos estava um agente da lei, impecavelmente fardado e com um sorrisinho irónico. “Boa noite senhora condutora. Reparou no que acabou de fazer?”, perguntou ele num tom entre o cinismo e o sarcasmo. Olhei pelo espelho retrovisor e vi um carro da polícia. Só me apeteceu gritar aquela bela palavra ofensiva começada por “F”!! Mas limitei-me a sorrir, fazer o meu olhar de menina perdida numa cidade grande e soltar com uma vozinha ridicula: “Boa noite senhor agente. O que acabei de fazer? Só me recordo de ter parado aqui no semáforo vermelho.” Ele continuava a sorrir pouco convencido. “A senhora acaba de passar aquele semáforo vermelho!”, disse apontado para trás do meu carro. Portanto, eles viram a minha bela manobra e eu precisava deseperadamente de um plano B. “Tenho de sair do carro e mostrar as minhas pernas neste vestido curto, senão não me livro da multa”, pensei para comigo. Respondi ao senhor agente: “Semáforo? Qual semáforo? Vai dar-me licença mas preciso sair do carro para perceber que sinal foi esse que simplesmente não vi”. Abri a porta e saí muito lentamente quase numa manobra de mulher-elástica contorcendo-me toda e sorrindo bastante. Os “cães” continuavam a morder-me violentamente os pés, mas perante aquele cenário tinha de estar linda e glamourosa e fazer uma verdadeira operação de charme. Argumentei que o sinal luminoso não estava bem colocado, que naquele local parecia que de dirigia apenas aos condutores que iam seguir em frente e eu virei ligeiramente antes à esquerda, e que era uma pessoa responsável e bla, bla, bla. Nesta altura o segundo agente já estava fora do carro da polícia e parecia divertido com a minha explicação dos acontecimentos. Livrei-me da multa e acabei por sair daquela situação com uma simples advertência. A reter deste episódio: Não passar sinais vermelhos, mas se o fizer garantir que tenho um vestido ou uma saia bem curta!

11 de Setembro de 2010

Um aroma diferente no ginásio

“Mas onde é que posso conhecer homens jovens, interessantes e giros?”, disse eu com um ar frustrado. “No ginásio. Nos ginásios encontras homens giros e com corpos esculturais”, respondeu a minha amiga enquanto revirava os olhos. A ideia não me pareceu assim tão descabida, por isso deitei mãos à obra. Afinal, preciso urgentemente de 'desencalhar' pois não aguento mais a pergunta: “Continuas solteira?” Como se o estado civil 'solteira' fosse o equivalente a uma doença prolongada com cada vez menos hipóteses de cura. Depois de percorrer as páginas online de alguns ginásios acabei por me decidir. Dirigi-me ao local e fiz a incrição. Isto de querer arranjar homem sai caro! Nem queria acreditar no valor que a senhora pronunciou entre sorrisos atrás do balcão. No dia seguinte saí decidida a apetrechar-me de todo o equipamento necessário. Ora então... Saco, calças (justas porque eu posso!!), top, sapatilhas, toalha de rosto e uma garrafa de água. Homens giros e esculturais, aqui vou eu! O primeiro contacto com o balneário feminino não foi o mais agradável. “O que faz esta magra aqui?”, ouvi sussurar uma cliente para outra. Como se ser magra fosse mais uma doença a juntar à de 'solteira'. Aventurei-me sem medos na direcção do instrutor. Expliquei que era a primeira vez em muitos anos que ia a um ginásio, mas que costumava correr regularmente e de vez em quando dava umas braçadas na piscina. Aconselhou-me a começar pelo 'cardio fitness' e depois passar para a musculação. Sorri às senhoras que corriam desenfreadamente na passadeira à minha esquerda e à minha direita mas não obtive nem uma palavra. O instrutor mandou-me partilhar de seguida uma máquina com um 'cavalheiro' bem apessoado. Olhei os músculos e o suor que lhe escorria no pescoço e àquela distância pareceu-me preencher os tais requisitos do “giro e escultural”. Um contacto mais próximo fez-me mudar de ideias. Enquanto eu levantava 20 quilos o 'cavalheiro' levantava 120! E... Aqueles 120 quilos transformavam-se a cada levantamento num aroma muito pouco agradável a um desodorizante que eu costumo designar de 'Sovacum'! O cheiro era quase nauseabundo, a juntar a um discurso muito mal elaborado que passava por palavras como “prontos bebé, agora é só trocar os pesos pra tu te assentares e fazeres igual”. Pois...“prontos” e “assentares” na mesma frase é demais! Voltei ao ginásio mais três vezes, mas acabei por desistir. Subitamente a ideia de correr no parque sozinha, com os phones colocados e a ouvir uma música que me agrada, pareceu-me a ideia do paraíso. Maria Diná, euzinha, continuo solteiríssima, mas cheirosa e a falar em bom português!

04 de Setembro de 2010

Escrava da Moda

Não é preciso ser uma 'expert' em Moda para saber que uns saltos altos fazem qualquer mulher mais elegante, por isso, e porque os meus 1,65 centímetros não fazem de mim um exemplar feminino requisitado pelas passerelles, desde os 17 anos que no meu vocabulário mais utilizado, associadas à palavra “sapatos” surgem sempre as palavras “saltos” e “altos”. Com tacão dos sete aos 15 centímetros tenho modelos para todos os gostos, géneros e feitios e uma sapateira que não tem fim. Por isso, naquele dia quando saí de casa pela manhã para mais uma jornada de trabalho, escolhi um par de sandálias castanhas com saltos de 12 centímetros a fazer 'pandan' com a malinha. O bater do salto na calçada provoca sempre o virar de algumas cabeças masculinas, uns piropos e uns assobios, mas nesse dia provocou também uma apreciação feminina. Já atrasada ultrapassei no passeio a toda a velocidade uma senhora sexagenária que passeava um cão daqueles bem pirosos com muito pelo e um lacinho cor de rosa na cabeça. Entre o trepidar dos meus saltos no chão e o barulho dos carros na estrada pareceu-me ouvir a senhora resmungar algo. Olhei para trás e ela, com um ar de quem me iria bater a qualquer momento, atirou: “Escrava da Moda! Sim, estou a falar consigo. Acha que isso são modos de sair à rua?” Ainda abismada com o que se estava a passar olhei para trás na esperança de que ela estivesse a insultar outra pessoa que não eu. Mas não havia ninguém, por isso perguntei: “Está a falar comigo?” Ela, que de repente aos meus olhos me pareceu a bruxa malvada das histórias de encantar, rosnou: “Esses saltos hão-de matá-la. Um dia parte uma perna e nem percebe porquê. Quando chegar à minha idade não vai conseguir andar. É uma escrava da Moda.” Pensei em virar costas e continuar a andar, afinal a senhora tinha mais de 70 anos e talvez tivesse apanhado muito sol na cabeça. Mas a minha avó tem a idade dela e na juventude também usou saltos vertiginosos e lembro-me de ver fotografias dela lindas com as suas longas pernas. Por isso ripostei enervadíssima: “Quando tiver a sua idade estarei num lar a coser meias e não a chatear desconhecidas na rua. Além disso, minha senhora, no seu tempo alguém se deu ao trabalho de lhe arranjar marido, mas agora o mercado está mau e se uma mulher não usar de todos os trunfos acabará encalhada para o resto da vida. Escrava da Moda de repente soou-me a elogio. Passe bem. Ah, e já agora tire esse laço ridículo da cabeça do cão que está com um ar absolutamente gay!”
Dias depois dei uma queda aparatosa nas escadas de minha casa, torci um pé e ando desde então com umas sabrinas bem rasas. Cara senhora, diga o que quiser da boca para fora, mas por favor não me rogue mais pragas! Obrigada.

21 de Agosto de 2010

Ventoínha, esse objecto estranho

Saí do trabalho decidida a comprar uma ventoínha. Não dormia há três noites com o calor e continuava sem arranjar companhia para beber uma bebida fresca ou comer um gelado numa esplanada. Entrei na loja de electrodomésticos e as opções já não eram muitas. Havia várias prateleiras com um placa que dizia “artigo esgotado” e ao meu lado dois casais discutiam sobre a última ventoínha com suporte. “Mas por que razão não vão à esplanada?”, pensei eu enquanto esboçava um sorriso. Foi nesta altura que apareceu o empregado e me aconselhou um modelo cujo preço até era bastante acessível. Depois de lhe dizer que sim, que aceitava a sugestão, ele pegou na caixa e deu-ma assim... fechadinha. “Não entregam o artigo pronto a usar?”, disse eu com um ar de cachorro abandonado na berma da estrada, embora não suficientemente convincente. “Não, mas é muito fácil montar a ventoínha. Só tem de ler as instruções”, soltou ele entre risos. Ainda bem que não me voltei a cruzar com o “simpático” empregado porque a minha vontade é de lhe bater. Cheguei a casa e deitei mãos à obra. Tirei as peças todas da caixa e abri o livro do 'passo a passo' que, convenhamos, com tanto termo técnico há-de ter sido escrito por um homem. Minutos depois e ainda a olhar para aquele conjunto de peças que mais parecia saído de uma nave espacial percebi que jamais poderia aperaltar o aparelho porque não tinha, imagine-se, uma chave de fendas. O “simpático” empregado, a quem ainda tenho vontade de bater., esqueceu-se de mencionar esse pormenor. Fui ao supermercado, a uma dessas grandes superfícies, e parei em perfeito estado de choque em frente ao mostruário das chaves de fendas. Petrifiquei! Diante de mim havia uma parafernália tal de objectos que me fez suspiar. Portanto, chave de fendas é uma definição básica para um conjunto infindável de cabos com cabeças das mais variadas formas que só se adaptam a determinados parafusos. Há chaves de fendas para parafusos de cabeça achatada, com fenda, em cruz, em estrela ,e com uns nomes estranhíssimos que sinceramente não decorei. E para ajudar à confusão há ainda outro instrumento maravilhoso chamado busca-polos, que é exactamente igual à chave de fendas mas que serve para detectar corrente eléctrica. Mas por que é que complicam tanto?! Ai as saudades que eu tenho de um prego e de um martelo! Depois de puxar pela memória lá me decidi por uma das chaves e surpresa das surpesas era a certa para os parafusos da ventoínha. Montei a dita e ela cá está a rodar as pás e a soltar ar frio. Mas confesso que para já está a uma distância segura, pelo menos até ser vista por um exemplar masculino. A falta que faz um homem...

14 de Agosto de 2010

Jantar só para um, se faz favor!

Já não bastava ter de carregar diariamente o peso de ser uma solteirona com 30 anos, ainda tenho de ser lembrada a todo o momento dessa realidade. Como qualquer solteira com uma vida profissional bastante activa, também eu tenho muito pouco tempo para as lides domésticas. Cozinhar é daquelas palavras que só em raras excepções faz parte do meu vocabulário. Não é que não saiba fazê-lo, até o faço muito bem. Mas, por um lado tenho pouco tempo, e por outro exagero invariavelmente na dose para uma pessoa e acabo por ter de jantar a mesma comida durante uma semana. Por isso, e para me poupar a essa situação, decidi um dia destes, de pois de um dia eaxustivo de trabalho, comprar meio frango assado. Repito: MEIO frango assado... Estava eu na fila de um supermercado concorrido quando empregado - com uma fisionomia a fugir para o obeso - gritou o número da minha senha. “Boa noite. Meio frango assado, cortado aos pedacinhos, se faz favor”, disse eu com um sorriso. Ele simpaticamente respondeu: “Não vendemos metades. Mas este frango é muito bom. Aliás, temos uma promoção fantástica. Na compra de dois frangos, só paga o preço de um frango e meio.” Dei por mim a fazer contas, logo eu que sou uma mulher de letras... Ora, portanto, não vendem meio frango, mas oferecem meio frango, se levar comida para um mês? Ou seja se levar dois? Tentei explicar esta situação ao empregado simpático e quase obeso, mas ele limitou-se a rir e achou por bem apresentar-me o chefe de secção que entretanto passava pelo balcão. O chefe de secção, que mais parecia trabalhar numa repartição de finanças, repetiu o discurso do “leve um frango e meio que nós oferecemos uma metade”. Eu já enervada, com a conversa dos frangos soltei aos berros, com a voz a bater no falsete e um olhar psicopata: “Caros vendedores de frango assado, tenho 30 anos, sou solteira e há meses que não coloco a mesa de jantar, por uma simples razão: Não tenho companhia! Como em pé, de costas para o lava-loiça, ou de pernas cruzadas com um tabuleiro no colo em frente à televisão para não me sentir tão sozinha. Por isso, obrigada pela oferta do 'frango e meio mais metade', mas não me apetece passar 15 dias – que era o tempo que eu levaria a consumir duas aves desse tamanho – a abrir o frigorífico e a consciencializar-me ainda mais do meu estado civil. Desisto do frango. Vou comprar comida chinesa só para uma pessoa. Obrigada!” E pronto, acabei a noite a jantar com dois pauzinhos...

07 de Agosto de 2010

O 'príncipe' tarado

Sempre me disseram para não esperar sentada porque o príncipe montado no cavalo branco jamais iria tocar-me à campaínha. Bom e a realidade é que eu vivo num oitavavo andar e certamente que seria complicado para o cavalo subir tantas escadas, ou tentar acomodar-se dentro do elevador. Mas, contra todas as possibilidades o príncipe apareceu... Não tocou à campaínha, simplemente parou o carro ao meu lado para pedir uma informação. Vamos por partes... Maria Diná, euzinha, saí enervada do meu local de trabalho para não fugir à regra e, quando vou na rua entretida a dizer mal do chefe mentalmente eis que um carro topo de gama pára mesmo ao meu lado. O vidro baixou e do outro lado o sorriso perfeito era tal e nos meus ouvidos começou a tocar a 'Marcha Nupcial'. O galã, parecia saído de uma publicidade de um daqueles perfumes masculinos que fazem qualquer mulher revirar os olhos. A conversinha começa: “Sabe dizer-me onde fica a esplanda 'x'?”, perguntou ele. “Não, mas no final da rua há uma esplanada cujo nome não me recordo. Talvez seja essa”, respondi entre sorrisos. De repente a cara dele mudou e o olhar ternurento da primeira abordagem acabava de tranformar-se em duas pupilas dilatadas de quem rapidamente me saltaria para cima. “Já nos conhecemos?”, soltou ele. “Não”, rosnei eu. “Sou o Pedro, podemos conhecer-nos?”, acrescentou ele. “Não”, rosnei novamente já a mostrar os caninos. O tipo decente de gravata chique, pele morena, e sorriso branqueado, que metera conversa comigo apenas minutos antes estava transformado num perfeito tarado! “Por que é que não nos podemos conhecer? Achei-a tão bonita, inteligente e interessante...”, insistiu ele. Ora portanto, vamos fazer um ponto de situação: Um tipo vai na estrada a conduzir, vê uma trintona no passeio, olha uma ou duas vezes e chega à brilhante conclusão de que ela é uma mulher “inteligente e interessante”. Pois... Na minha cabeça a 'Marcha Nupcial' há muito já tinha dado lugar àqueles acordes míticos de uma cena de filme em que a menina está no chuveiro e o assassino aparece com uma faca (não me recordo do nome da película). Ele continua à espera de resposta eu resolvo soltar em voz alta o que me vai no pensamento. Por que é que não nos podemos conhecer? “Porque não me apetece acabar cortada às postas dentro de um frigorífico! Mas obrigada pelos elogios.” Ele mudou de cor, arregalou os olhos e ficou petrificado. Eu sorri e continuei a andar. Afinal, talvez o príncipe apareça montado num cavalo branco lá em casa. A conduzir um carro topo de gama é que já começo a duvidar...

01 de Agosto de 2010

O vestido perfeito

Era só mais uma ida às lojas para me mimar. Não estava bem, o meu ego já tinha experimentado níveis mais altos e precisava de comprar qualquer coisinha. Entrei numa loja, dei a volta completa ao espaço, e levei para o provador um vestido básico, daqueles que não compromete ninguém – nem muito curto nem muito comprido, com um decote médio, e uma cor sóbria, azul escuro. Estava já eu despida quando uma mão masculina entra pelo provador segurando um trapinho minúsculo ‘azul eléctrico’. Do outro lado: “Experimente este vestido, foi feito para si. Tem o corpo perfeito para usá-lo”. Entrei no primeiro vestido às pressas e abri de rompante a cortina. Do outro lado uns expressivos olhos azuis fitavam-me. Mudei de cor, arregalei os olhos e, depois de me recompor soltei: “Obrigada, mas não pedi este vestido”. Resposta: “Não pediu, mas sei que vai vesti-lo e levá-lo.” Mas que é este homem? Pensei eu. Pensei e disse em voz alta: “E o senhor é quem?”. Resposta: “O empregado” E mais um sorriso daqueles que eu nem sabia que ainda existiam. “Entre no vestido e já falamos.” Fechei a cortina e lá me lancei dentro do mini-micro, ulta curto e decotado vestido, sem costas, e que realçava cada forma deste corpinho que já bateu nos 30. Confesso que gostei do que vi quando me olhei ao espelho, mas o trapinho estava para lá do que é considerado provocante! Do outro lado da cortina novamente a voz do meu mais recente galanteador: “Saia sem medos, tenho aqui uns saltos altos à sua espera.” Voltei a corar! Estas palavras ditas assim por um estranho mexem-me com o sistema nervoso. O empregado baixou-se e calçou-me os sapatos de saltos vertiginosos e eu senti-me a cinderela acabadinha de ser encontrada pelo seu príncipe encantado. “Perfeito”, disse ele. Olhei-me ao longe no espelho ao fundo do corredor. De facto o empregado sabia do que falava, senti-me nova! “Não saia daí. Este vestido estava reservado e ainda temos de convencer a gerente de que foi feito para si”, disse entre sorrisos branqueados o meu ‘príncipe da loja de roupa’. A gerente deixou-se convencer facilmente, mais pelo sorriso dele do que pela maneira como o vestido encaixava no meu corpo. E eu comprei o vestido que me tranformou em mulher fatal! Antes de sair da loja ainda agradeci ao empregado e ele fez questão de referir que uma nova leva de trapinhos chega já para a semana. Acho que volto a passar por lá... para me mimar...

26 de Julho de 2010

Uma trintona na noite

Sexta-feira à noite... Coloco um vestido curto e saltos altos vertiginosos, aliso o cabelo e exagero na maquilhagem. É a vantagem de ser noite e as extravagâncias são permitidas. Apanho uma amiga em casa e rumo a um dos locais mais 'in' do momento. A fila é grande para entrar mas as vantagens de já ter 30 anos passa por conhecer todos os porteiros de discotecas da cidade. Um sorriso e um piscar de olhos e é levantada a fita que permite o acesso aos convidados 'vip'. Muito zum-zum e uns murmúrios pouco simpáticos das pessoas que aguardam há uns extensos minutos na fila, mas com isso lido eu bem.
Primeira paragem: o bar. E logo ali se começa a perceber o fenómeno 'homem na noite'. Um homem quando está num café, num bar ou na praia, ou noutro sítio qualquer que não uma discoteca, tende a apostar numa abordagem casual ou romântica. Ou seja, começa o discurso com uma frase do tipo “Olá, gostas desta música?” ou “Reparei em ti, achei-te interessante, o meu nome é ...”. Mas quando o homem está num espaço nocturno gosta de se evidenciar e aí começa a descarrilar no discurso e a abordagem tende a ser desastrosa. “O que é que bebes? Uma cerveja?” pergunta de rompante um tipo ao meu lado. Uma cerveja? Haverá coisa menos degradante para oferecer a uma senhora? A seguir vai perguntar o quê? Se quero um pires de tremoços para acompanhar? “Obrigada, prefiro pagar eu própria um Martini”, repondo e saio a bambolear-me já de copo na mão em direcção à pista de dança. Monta-se o cerco. De repente sinto que estou numa floresta e não passo de uma presa à espera que a matilha de lobos se organize para me caçar. À minha volta (e da minha amiga) há dois grupos de homens todos de frente para nós, todos de copo na mão, com a “tal” da cerveja na maior parte dos casos. Há um ou outro que se aventura na aproximação, mas os desastres sucedem-se. Um dos tipos é engraçado e até lhe dou o benefício da dúvida, mas quando lhe pergunto a idade percebo que a hora da retirada chegou. 25 anos? Mas alguém ainda ten 25 anos? E com aquele corpo engana bem! Pede-me o número de telefone e eu dou... Dou o número do senhor Alfredo, que é o senhor que vai lá a casa entregar a roupa passada. Eu sei que é chato mas é dos poucos números que sei de cor além do meu. E 25 anos? Ai Maria Diná, há requistos mínimos a ter em conta!
Três horas depois, já a cambalear e com a maquilhagem em mau estado decido que está na hora de dar por terminada a noite. Balanço da saída: Uma dor de pés, um consumo um bocadinho elevado no cartão que ninguém se ofereceu para pagar e uma maldadezinha com um miúdo de 25 anos... Há noites piores...

18 de Julho de 2010

Jantar de... casados

Assim que toquei à campainha senti um nervoso miudinho percorrer o meu corpo de uma ponta à outra. Sempre que me convidam para um jantar de amgios, sobretudo daqueles amigos, que já sei que invariavelmente voltarei a casa com uma dose extra de álcool no sangue...
Do outro lado da porta recebe-me uma criança chorona ao colo da minha amiga. O marido aproxima-se e cumprimenta-me. Entro na sala de jantar e a choradeira de mais duas crianças junta-se à da primeira em uníssono. E... eis que começa o momento mais odiado por qualquer mulher na casa dos 30: a apresentação aos vários casais presentes à mesa de jantar... A Ana e o João, a Rita e o André, a Sofia e o Filipe e... Eu e mais eu.
Sinto-me a Bridget Jones assim que começo a ser bombardeada com as famosas perguntas: Então e o teu príncipe encantado? Estás outra vez sem namorado? “Outra vez?” , penso eu... Mas estas pessoas conhecem-me de onde? Ah sim... os meus amigos, aqueles que me convidaram para jantar já fizeram o relatório completo. “É a Maria, vem sozinha porque não tem namorado, nem marido, e tem quase 30 anos a coitada.”
Mas o melhor é que se esquecem de dizer que vivo sozinha, sou absolutamente independente, tenho boa figura, o meu corpo ainda não está coberto de escamas e celulite e faço tudo o que me apetece. Pronto, agora fiquei enervada!
Logo após o primeiro prato outra questão muito oportuna: Não queres ter filhos? “Quero, porque razão não haveria de querer?”, penso para mim já com o sobrolho levantado. Respondo que sim, sem entrar em pormenores. E eis senão quando o André – que eu conhecera apenas uma hora antes – solta: “Tic tac... O relógio biológico não pára.” Ora o senhor tem uma barriga a fazer lembrar o boneco Michelin, é casado com uma senhora que nem passa perto do número 36 quando entra numa loja de roupa e tem um filho muito irrequieto e mal educado...
Bebo de rompante mais um copo de vinho tinto. Não sei se rio ou se choro, por isso, decido recorrer à chamada “saída de emergência”. Mando discretamente um sms a uma amiga para que me ligue. O meu telemóvel toca e logo depois peço desculpa mas tenho mesmo de me ir embora porque surgiu um “enorme” imprevisto. Acabo com o vinho que ainda sorri para mim no copo e abandono a sala. Assim que chego à rua solto um suspiro de alívio!

13 de Julho de 2009