terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Tarefa (quase) impossível

O pedido era simples: “Maria tens de conseguir a primeira entrevista exclusiva!” Gosto quando me pedem trabalhos quase impossíveis com a naturalidade de quem pede um café ao balcão.“Pois claro, cheio e em chávena quente”, disse em voz alta enquanto desligava o telefone. Já passava das 23h00 e a minha primeira tarefa era descobrir a morada do tal entrevistado e de preferência chegar a casa antes dele para a abordagem ser imediata e sem aviso prévio. Assim em jeito de bala certeira para derrubar o alvo no primeiro embate. Ora precisava de um carro e de companhia para esta demanda da casa escondida. Após algumas tentativas lá arranquei duas almas caridosas do recanto dos seus lares e partimos para a acção. Eu de bloco em riste no lugar do pendura ia dando indicações. “Vira à direita. Contorna a rotunda. Sai na próxima saída.” Na verdade sentia-me mais perdida do que um cego no meio de um tiroteio. “Maria, não fazes a menor ideia de onde estamos não é verdade?”, atirou ao ar o meu amigo motorista. O outro no banco de trás começou a rir compulsivamente até que soltou: “Vá lá Maria diz a tua célebre frase 'gosto de me perder para depois me encontrar'. Este é o momento ideal.” Com o relógio a dar meia-noite o céu fechou-se num breu profundo. Começou a chover, a chuva transformou-se em chuvada e nós já mal víamos a estrada à nossa frente. Decidimos parar ao lado de um taxista. “Boa noite, sabe dizer-me onde fica a rua X?”, perguntei eu sorridente. “Ehhhh isso é daqueles sítios maus para onde nós não vamos. Olhe e a menina com esse ar também me parece que não quer ir para lá”, disse em tom jocoso o senhor ao volante. Fechei o vidro. “Tens as portas trancadas?”, murmurei para o meu amigo. “Tenho”, respondeu. “E temos gasolina no carro?”, acrescentei. “Temos.” O cenário colocado assim já não parecia tão mau, afinal se precisássemos de fugir a toda a velocidade tínhamos boas hipóteses. Depois de mais uns quantos quilómetros encontramos um homem numa paragem de autocarro. “Desculpe, sabe onde fica a rua X?”, voltei a perguntar já com um ar cansado. “Não. Não faço ideia. Mas deve ser naquele bairro manhoso perto dos bombeiros”, atirou. As palavras “bairro manhoso” não saíam da minha cabeça, mas eu continuava disposta a conseguir o meu objectivo. Voltas, voltas e mais voltas depois, não tínhamos encontrado nem bairro, nem bombeiros, nem vivalma naquela que parecia ser a terra de ninguém. Chovia agora menos e eu avistei um homem ao longe no passeio. “Encosta ali à frente. Aquele senhor talvez ajude”, soltei credível. A menos de um metro do homem paralisei. “Filipe, é o homem da paragem de autocarro! Começo a ficar assustada. Não há pessoas nestas terra a não ser este homem! Vamos embora...”, sussurei para o meu amigo motorista. “Está ali o quartel dos bombeiros”, apontou ele. Entrámos no bairro, que afinal não era tão “manhoso” e encontrámos a casa. Minutos depois um táxi parava à porta com o meu entrevistado. “Eu não conheço a sua cara de qualquer lado?”, disse ele para mim. Percebi que a entrevista exclusiva estava garantida.

09 de Janeiro de 2011

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