Que eu me tenha em boa conta é uma coisa. Que um homem entre em combustão por minha causa, é outra. Conheci-o meio por acaso, depois percebi que até tinhamos amigos e comum, e lá decidi dar a mão à palmatória. É giro e tem boa conversa ao telefone, por que não aceitar o convite para sair? Vesti-me a preceito: mini-saia, top e saltos altos. Fiz caracóis no cabelo e passei um baton vermelho forte nos lábios. Já diz o velho ditado que no amor e na guerra vale tudo, e para uma trintona o que não faltam são 'inimigas' nesta guerra, sempre dispostas a atacar o nosso alvo. À hora marcada saí do meu carro e entrei no dele. O discurso coerente que lhe conhecia do outro lado da linha acabava de transformar-se numa gagez estranha. “O tipo ficou todo atrofiado por me ver de mini-saia”, pensei com os meus botões. Entrámos na discoteca. Àquela hora poucos clientes ainda tinham chegado para um pezinho de dança. Tirei o casaco e ele fez o mesmo. Mas estava tão concentrado a olhar para o meu decote que nem viu onde deixou o dito. De repente mesmo ao lado dele começo a ver uma chama, que rapidamente se transforma em labaredas. Olho à volta e vejo velinhas em cima das outras mesas. “Meu Deus! Ele pousou o casaco em cima da vela!” Fiquei inerte e não conseguia expressar-me. Queria gritar, tentar abafar o fogo, mas simpelsmente não conseguia. O cheiro a queimado começava a subir-me pelas narinas e a deixar-me enjoada. Ele parecia estar numa outra dimensão. Continuava a olhar-me o decote generoso indiferente ao incêndio que acabava de originar. De rompante consegui levantar-me e balbuciar qualquer coisa. Ele em pânico, quando finalmente se deparou com o cenário, atirou às labaredas a bebida que tinha na mão: Vodka limão. Drama, drama, drama. Álcool, álcool, álcool. As chamas aumentaram subitamente! Até que um empregado nervoso accionou finalmente um plano de combate ao incêndio: usou um extintor! Em menos de um minuto as chamas desapareceram e do casaco sobrou um bocado de pano com dois grandes buracos. Começámos a rir, eu e ele, como se estivessemos a ver um espectáculo muito bom de stand up comedy. Não sei se dos nervos, se do pânico, se da situação caricata, as gargalhadas sucediam-se de tal forma que cheguei a verter umas lágrimas. Que eu seja uma brasa, muito que bem, mas daí até fazer um homem arder vai uma grande distância. Mas o que é certo é que o ambiente naquela noite aqueceu, e de que maneira!
16 de Janeiro de 2011