sábado, 25 de dezembro de 2010

A campaínha que não parava de tocar

Há dias assim... Parece que abrem a porta do hospital dos malucos e lhes dão a morada de minha casa como se eu fosse a cura para todos os males. Cheguei a casa estafada depois de um dia intenso de trabalho. Só precisava de tomar um duche rápido, pôr uma roupinha com classe e um toque de maquilhagem. Mas a campainha da porta de casa tocou “Mas quem é que abriu a porta da rua outra vez?”, pensei. Olhei pelo buraco e vi um adolescente com a cara a rebentar de borbulhas. “Pois não?”, atirei-lhe seca. “Sou da empresa x e estou a fazer um inquérito para saber se está satisfeita com a sua televisão por cabo?” Pois claro... E a hora de jantar foi a melhor opção para me enervarem. Recorri à minha estratégia habitual para me livrar deste tipo de abordagem. Coloquei-lhe a mão em cima do ombro e soltei: “Ainda bem que cá veio, sinto-me tão sozinha, a precisar de falar. A minha vida é um desespero, ando a tomar antidepressivos...” Em menos de dois segundos a criatura arredou pé. Mas ainda mal eu tinha fechado a porta e a campaínha voltou a tocar. “Ai o raio do miúdo...”, disse entredentes enquanto agarrei o puxador. Do lado de fora duas velhotas. As mesmas de sempre. As que eu vejo pelo visor da campaínha na porta da rua e nunca deixo entrar no prédio. “Boa noite. Somos testemunhas da religião y e vimos falar consigo sobre o Mal”, explicou uma delas. O Mal? Mas qual mal? Mal estão a fazer-me estas alminhas que eu já estou super atrasada. Recorri a outra estratégia. Mostrei-lhes o mal! “Pois... Eu ando muito stressada. Desde que virei actriz de filmes pornográficos que não tenho tempo para nada. São dias e dias envolvida em cenas de sexo. E há posições que me dão cabo do corpo...” Nem me deixaram continuar nesta divagação. Apanharam o elevador sem olhar para trás. Curiosamente do outro elevador saiu uma personagem que mais parecia ter-se teletrasportado do passado. Bigode farfalhudo e a falha de um dente. “Boa noite”, disse aquele desastre de homem. “Boa noite. Diga se faz favor”, respondi. “O chefe de família está?” O chefe de família? Mas este vive em que planeta.? “Está sim, está a falar com ele. Diga...”, rosnei com tom irónico. “Olhe minha senhora eu precisava mesmo era de falar com o seu marido”, insistiu ele. Bom, já que hoje me escolheram para chatear lá vamos nós outra vez: “Olhe marido não tenho, tenho mulher. Sou homossexual. Mas se quer tanto falar com o chefe de família, sou eu.” O senhor bigodaças mudou de cor, arregalou os olhos e gritou: “É por estas e por outras que este país não anda para a frente!” E virou costas. Eu finalmente entrei em casa e tranquei a porta. Decidi que não a abria a mais ninguém. O telemóvel tocou e o meu acompanhante para jantar estava já à minha espera. E eu ainda nem o duche tinha tomado...

19 de Dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Ouvidos de penico

Ser solteira e disponível parece ser a definição que os amigos encontram no dicionário para "ouvidos de penico". Ora esta bela expressão demonstra nem mais nem menos o facto de despejarem para dentro dos meus belos ouvidos as maiores lamentações da humanidade, envoltas numa grande dose de porcaria. "Ela nem tem o que fazer... Ela está em casa sozinha... Ela está sem companhia... Por que não ligar-lhe e descarregar em cima dela todos os dramas que me atormentam?”, devem ser estes os pensamentos que lhes passam pela mente antes de marcarem o meu número no telemóvel. Juro que quando olho para o visor do telefone e vejo que a chamada já excedeu uma hora me apetece simplesmente desligar o aparelho e fingir que caiu. Bom, até já tentei, mas não resulta! Invariavelmente ligam de volta e o azedume continua. Ora é o namorado que a deixou pendurada e foi de fim-de-semana com os amigos, ora é a ex-mulher ou a ex-namorada que veio atormentar o belo casal, ora é o ex da ex que andou com outro ex, que às tantas perco a conta e limito-me a responder "pois"..."claro"... "compreendo"... E, na verdade já nem sei do que estão a falar.
Depois, e como se não bastasse a dejecção para os meus ouvidos sobre os seus dramas começa o leque de sugestões do que eu devo fazer para abandonar essse rótulo que eles mesmo me colocaram de solteitona. “Não te esforças o suficiente para arranjar namorado!” Como se eu tivesse de me transformar numa espécie de atleta olímpico em competição para arrecadar esse grande prémio que é um exemplar masculino disponível. “Usas pouca maquilhagem.” Eu? Pouca maquilhagem? Mas é suposto paracer um palhaço para os homens olharem para mim? “És muito esquisita.” Prefiro dizer que sou selectiva! Marrecos, coxos, desdentados, pouco inteligentes, sem pingo de humor, e sem noção do que é ser cavalheiro não estão na minha lista de requisitos, é um facto. “Tens de sair e descontrair.” Acho que o problema é precisamente o contrário, saio muito, conheço muita gente pouco interessante, exagero no álccol, descontraío demais e digo o que devo e o que não devo! Por favor poupem os meus ouvidos.
Caros comprometidos desta vida, lanço aqui um repto: não atormentem quem está livre. Eu estou sem namorado mas não quer com isto dizer que não tenha vida. Pode simplesmente apetecer-me estar a mofar em frente a uma televisão, embrulhada numa manta ridícula, em vez de vestir a pele de psicóloga, e agradecia um bocadinho de compreensão nesse sentido. Por via das dúvidas vou desligar o telemóvel por umas horas....

12 de Dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

Num casamento...

Uma grande amiga casou. Casou e estupidificou... Pelo menos é a única justificação que encontro para tanta 'pirosada' junta. A Rita era uma pessoa normal, sempre gostou de coisas discretas e sempre disse que havia de ter um enlace simples. Por isso, quando vi o vestido de noiva confesso que fiquei indecisa entre um ataque de choro e um ataque de riso! De repente a Rita deixou de ser a noiva e estava transformada no bolo de noiva. Folhos, rendas, pérolas e outras variantes de apliques transformaram uma peça de roupa única numa aparatosa indumentária digna de um Drag Queen. E a juntar a isto um penteado ridículo a fazer lembrar Maria Antonieta! “Estás muito bonita!”, soltei com o sorriso mais cínico que consegui. Ela começou a chorar... Por momentos acreditei num rasgo de lucidez e pensei que ela trocaria o vestido de Carnaval por um dos muitos vestidos giros que sei que tem pendurados no armário. Mas não... “Estou a chorar de felicidade!”, explicou ela. “Tudo bem... Prossigamos... Que este dia vai ser animado... Ainda bem que nos casamentos o álccol abunda!”, pensei.
Depois de um verdadeiro desfile de horrores na Igreja com um grupo de conviados que parecia acabadinho de sair de um filme mau dos anos 80, seguiu-se o copo d'água. “Não acredito!” Arregalei os olhos, olhei e voltei a olhar... O meu maior pesadelo estava ali à minha frente. Uma pindérica qualquer – descobri depois que era prima do noivo – tinha um vestido igualzinho ao meu. Quer dizer, dois tamanhos acima! Mas igual!!! “E agora? Vou ao hotel trocar de roupa.” A ideia mal teve tempo de me passar pela cabeça quando um bando de miúdos irritantes já gritava a plenos pulmões: “Elas têm vestidos iguais! Elas têm vestidos iguais!” “Se não podes vencê-los, junta-te a eles”, pensei, largando um sorriso amarelo. Bebi um copo de vinho tinto quase de um gole só.
Ainda pouco confortável comecei à procura do meu lugar. “Está acompanhada?”, perguntou um dos empregados de mesa. “Não”, respondi. “Então é das solteiras?”, disse ele. “Digamos que estou a manter as opções em aberto”, ripostei. “Então o seu lugar é na mesa das solteironas”, atirou-me como um balde de água fria enquanto apontava para a mesa onde já se acomodava um grupo. “Só faltava colar uma placa nas costas das cadeiras a dizer 'rejeitados pela sociedade'”, pensei. Cumprimentei as 'crituras' que padecem da mesma 'doença' que eu – a solteirice aguda – e bebi outro copo de vinho tinto. E outro, e outro, e outro ao longo do jantar, até ter chegado o momento mais aguardado da noite pela ala encalhada. “A noiva vai atirar o bouquet!”, gritou uma quarentona eufórica enquanto atropelava quem se atravessava no caminho. Permaneci sentada. O álcool e o sangue já cohabitavam amigavelmente no meu corpo e levantar-me não era opção!

04 de Dezzembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O pneu, o macaco e as porcas...

Nunca a lei de Murphy ecoou tão alto dentro da minha cabeça. O despertador não tocou porque falhou a luz, não encontrava as malas de viagens e acabei por atirar o que encontrei na primeira gaveta que abri para dentro de um saco de ginásio, bati a porta e entrei no carro a toda a velocidade. A chuva miudinha toldava-me a visibilidade e eu sonhava com a primeira estação de serviço para poder levar à boca um café duplo. Missão: chegar a horas do almoço em família para não ter de ouvir pela milésima vez as conversas das tias chatas: “Não tem filhos nem marido, é uma irresponsável. Nunca chega a tempo aos compromissos de família.” Quase a furar o chão do carro, estilo Flinstones, de tanto carregar no acelerador, fui acordada com um estrondo monumental e um guinar do volante. “Não acredito nisto!” Encostei na berma e liguei os quatro piscas. Assim que saí do carro o frio cortante da manhã agarrou-se ao meu corpo. O aroma da terra molhada misturava-se agora com o cheiro de um pneu queimado. “E agora?” O cenário era no mínimo assustador: tirei o saco do ginásio e olhei para aqueles objectos que pareciam ter vindo do espaço: “Como é que eu vou trocar um pneu?” Agarrei no telemóvel e liguei para o número da assistência em viagem. “Bla, bla , bla. A asssistência não assegura a troca de um pneu, só é activada no caso do carro ficar imobilizado”, explicou a senhora da voz irritante do outro lado da linha. “Então e acha que o carro não está imobilizado? A não ser que o carregue às costas, não consigo pô-lo em movimento. EU NÃO SEI TROCAR UM PNEU!”, gritei em desespero. De pouco adiantou, porque ela começou a repetir exactamente o que tinha dito. “Ok, respira fundo Maria e pensa noutras opções.” Liguei para um amigo. “João, estou na auto-estrada com um pneu furado e preciso de ajuda...” Resposta do João: “Já tens o colete de sinalização vestido? E o triângulo montado? Estás fora da viatura? Tens os quatro piscas ligados?” É por isso que um homem faz tanta falta na vida de uma mulher! Vesti o colete, uma peça de vestuário que precisa urgentemente de ser revista porque está algures entre o horrível e o medonho, já para não falar do tamanho. Abri a caixa do triângulo e petrifiquei. “Mas isto não vem montado?” Depois de algumas tentativas coloquei o dito a 30 metros do veículo. “Agora tens de encontrar o macaco e a chave de porcas”, explicou o João. “Macaco e porcas? Mas eu abri a bagageira do meu carro ou a Arca de Noé?” Já estava prestes a desistir e mostrar as pernas ao primeiro condutor que passasse quando uma carrinha da assistência na auto-estrada parou. O técnico trocou o pneu em menos de dois minutos e desejou-me boa viagem. Eu nem queria acreditar! Afinal senhor Murphy, nem tudo pode correr mal... Bom, foi o que eu pensei antes de começar a ouvir as tias no almoço de família...

27 de Novembro de 2010