Há dias assim... Parece que abrem a porta do hospital dos malucos e lhes dão a morada de minha casa como se eu fosse a cura para todos os males. Cheguei a casa estafada depois de um dia intenso de trabalho. Só precisava de tomar um duche rápido, pôr uma roupinha com classe e um toque de maquilhagem. Mas a campainha da porta de casa tocou “Mas quem é que abriu a porta da rua outra vez?”, pensei. Olhei pelo buraco e vi um adolescente com a cara a rebentar de borbulhas. “Pois não?”, atirei-lhe seca. “Sou da empresa x e estou a fazer um inquérito para saber se está satisfeita com a sua televisão por cabo?” Pois claro... E a hora de jantar foi a melhor opção para me enervarem. Recorri à minha estratégia habitual para me livrar deste tipo de abordagem. Coloquei-lhe a mão em cima do ombro e soltei: “Ainda bem que cá veio, sinto-me tão sozinha, a precisar de falar. A minha vida é um desespero, ando a tomar antidepressivos...” Em menos de dois segundos a criatura arredou pé. Mas ainda mal eu tinha fechado a porta e a campaínha voltou a tocar. “Ai o raio do miúdo...”, disse entredentes enquanto agarrei o puxador. Do lado de fora duas velhotas. As mesmas de sempre. As que eu vejo pelo visor da campaínha na porta da rua e nunca deixo entrar no prédio. “Boa noite. Somos testemunhas da religião y e vimos falar consigo sobre o Mal”, explicou uma delas. O Mal? Mas qual mal? Mal estão a fazer-me estas alminhas que eu já estou super atrasada. Recorri a outra estratégia. Mostrei-lhes o mal! “Pois... Eu ando muito stressada. Desde que virei actriz de filmes pornográficos que não tenho tempo para nada. São dias e dias envolvida em cenas de sexo. E há posições que me dão cabo do corpo...” Nem me deixaram continuar nesta divagação. Apanharam o elevador sem olhar para trás. Curiosamente do outro elevador saiu uma personagem que mais parecia ter-se teletrasportado do passado. Bigode farfalhudo e a falha de um dente. “Boa noite”, disse aquele desastre de homem. “Boa noite. Diga se faz favor”, respondi. “O chefe de família está?” O chefe de família? Mas este vive em que planeta.? “Está sim, está a falar com ele. Diga...”, rosnei com tom irónico. “Olhe minha senhora eu precisava mesmo era de falar com o seu marido”, insistiu ele. Bom, já que hoje me escolheram para chatear lá vamos nós outra vez: “Olhe marido não tenho, tenho mulher. Sou homossexual. Mas se quer tanto falar com o chefe de família, sou eu.” O senhor bigodaças mudou de cor, arregalou os olhos e gritou: “É por estas e por outras que este país não anda para a frente!” E virou costas. Eu finalmente entrei em casa e tranquei a porta. Decidi que não a abria a mais ninguém. O telemóvel tocou e o meu acompanhante para jantar estava já à minha espera. E eu ainda nem o duche tinha tomado...
19 de Dezembro de 2010
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