Nunca a lei de Murphy ecoou tão alto dentro da minha cabeça. O despertador não tocou porque falhou a luz, não encontrava as malas de viagens e acabei por atirar o que encontrei na primeira gaveta que abri para dentro de um saco de ginásio, bati a porta e entrei no carro a toda a velocidade. A chuva miudinha toldava-me a visibilidade e eu sonhava com a primeira estação de serviço para poder levar à boca um café duplo. Missão: chegar a horas do almoço em família para não ter de ouvir pela milésima vez as conversas das tias chatas: “Não tem filhos nem marido, é uma irresponsável. Nunca chega a tempo aos compromissos de família.” Quase a furar o chão do carro, estilo Flinstones, de tanto carregar no acelerador, fui acordada com um estrondo monumental e um guinar do volante. “Não acredito nisto!” Encostei na berma e liguei os quatro piscas. Assim que saí do carro o frio cortante da manhã agarrou-se ao meu corpo. O aroma da terra molhada misturava-se agora com o cheiro de um pneu queimado. “E agora?” O cenário era no mínimo assustador: tirei o saco do ginásio e olhei para aqueles objectos que pareciam ter vindo do espaço: “Como é que eu vou trocar um pneu?” Agarrei no telemóvel e liguei para o número da assistência em viagem. “Bla, bla , bla. A asssistência não assegura a troca de um pneu, só é activada no caso do carro ficar imobilizado”, explicou a senhora da voz irritante do outro lado da linha. “Então e acha que o carro não está imobilizado? A não ser que o carregue às costas, não consigo pô-lo em movimento. EU NÃO SEI TROCAR UM PNEU!”, gritei em desespero. De pouco adiantou, porque ela começou a repetir exactamente o que tinha dito. “Ok, respira fundo Maria e pensa noutras opções.” Liguei para um amigo. “João, estou na auto-estrada com um pneu furado e preciso de ajuda...” Resposta do João: “Já tens o colete de sinalização vestido? E o triângulo montado? Estás fora da viatura? Tens os quatro piscas ligados?” É por isso que um homem faz tanta falta na vida de uma mulher! Vesti o colete, uma peça de vestuário que precisa urgentemente de ser revista porque está algures entre o horrível e o medonho, já para não falar do tamanho. Abri a caixa do triângulo e petrifiquei. “Mas isto não vem montado?” Depois de algumas tentativas coloquei o dito a 30 metros do veículo. “Agora tens de encontrar o macaco e a chave de porcas”, explicou o João. “Macaco e porcas? Mas eu abri a bagageira do meu carro ou a Arca de Noé?” Já estava prestes a desistir e mostrar as pernas ao primeiro condutor que passasse quando uma carrinha da assistência na auto-estrada parou. O técnico trocou o pneu em menos de dois minutos e desejou-me boa viagem. Eu nem queria acreditar! Afinal senhor Murphy, nem tudo pode correr mal... Bom, foi o que eu pensei antes de começar a ouvir as tias no almoço de família...
27 de Novembro de 2010
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