Ser solteira e disponível parece ser a definição que os amigos encontram no dicionário para "ouvidos de penico". Ora esta bela expressão demonstra nem mais nem menos o facto de despejarem para dentro dos meus belos ouvidos as maiores lamentações da humanidade, envoltas numa grande dose de porcaria. "Ela nem tem o que fazer... Ela está em casa sozinha... Ela está sem companhia... Por que não ligar-lhe e descarregar em cima dela todos os dramas que me atormentam?”, devem ser estes os pensamentos que lhes passam pela mente antes de marcarem o meu número no telemóvel. Juro que quando olho para o visor do telefone e vejo que a chamada já excedeu uma hora me apetece simplesmente desligar o aparelho e fingir que caiu. Bom, até já tentei, mas não resulta! Invariavelmente ligam de volta e o azedume continua. Ora é o namorado que a deixou pendurada e foi de fim-de-semana com os amigos, ora é a ex-mulher ou a ex-namorada que veio atormentar o belo casal, ora é o ex da ex que andou com outro ex, que às tantas perco a conta e limito-me a responder "pois"..."claro"... "compreendo"... E, na verdade já nem sei do que estão a falar.
Depois, e como se não bastasse a dejecção para os meus ouvidos sobre os seus dramas começa o leque de sugestões do que eu devo fazer para abandonar essse rótulo que eles mesmo me colocaram de solteitona. “Não te esforças o suficiente para arranjar namorado!” Como se eu tivesse de me transformar numa espécie de atleta olímpico em competição para arrecadar esse grande prémio que é um exemplar masculino disponível. “Usas pouca maquilhagem.” Eu? Pouca maquilhagem? Mas é suposto paracer um palhaço para os homens olharem para mim? “És muito esquisita.” Prefiro dizer que sou selectiva! Marrecos, coxos, desdentados, pouco inteligentes, sem pingo de humor, e sem noção do que é ser cavalheiro não estão na minha lista de requisitos, é um facto. “Tens de sair e descontrair.” Acho que o problema é precisamente o contrário, saio muito, conheço muita gente pouco interessante, exagero no álccol, descontraío demais e digo o que devo e o que não devo! Por favor poupem os meus ouvidos.
Caros comprometidos desta vida, lanço aqui um repto: não atormentem quem está livre. Eu estou sem namorado mas não quer com isto dizer que não tenha vida. Pode simplesmente apetecer-me estar a mofar em frente a uma televisão, embrulhada numa manta ridícula, em vez de vestir a pele de psicóloga, e agradecia um bocadinho de compreensão nesse sentido. Por via das dúvidas vou desligar o telemóvel por umas horas....
12 de Dezembro de 2010
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