domingo, 28 de novembro de 2010

A magia do primeiro amor

Encontrei o meu primeiro amor, assim do nada, sem aviso prévio, sem anúncio das mudanças que aquele jovem lindo, de olhos verdes e corpo escultural sofreu nos últimos anos. Estacionei o carro mesmo em frente à padaria e saí a correr tentando evitar as gotas chatas da chuva miudinha. Choquei contra um homem e reconheci-lhe o perfume e a voz quando me pediu desculpa. E foi só isso que reconheci. O cabelo loiro deu lugar a uma cabeça careca e luzidia, os olhos verdes esconderam-se por trás de uns óculos de 'nerd' e o corpo escultural foi substúído por uns pneus assustadores! “Bruno?”, soltei eu num misto de dúvida e certeza. “Sim”, respondeu ele com cara de quem nunca me tinha visto na vida. “Sou eu, a Maria Diná!'” Os olhos dele esbugalharam-se e depois abriu um enorme sorriso... e mostrou falta de um dente. “Estás tão bonita!”, disse ele com um tom de admiração. “Tu estás... diferente. Continuas simpática”, consegui tirar do fundo das entranhas. 'Diferente' e 'simpático' são invariavelmente os adjectivos que costumo usar para definir pessoas feias e gordas e naquele momento eram estas únicas duas palavras que me percorriam o cérebro. Dei por mim em poucos segundos a pensar nas juras de amor que tinha feito àquele homem atrás do pavilhão de desporto do liceu. Imagine-se que tinhamos ficado “juntos para sempre”... Só me ocorria agora estar com ele na cama e ter de lhe pedir: “querido tira o rabo do travesseiro”de tão careca que ele está. Ainda bem que a adolescência é aquela fase das incertezas e que o que queremos num dia no outro não nos satisfaz. Eu estava perante o exemplar masculino a quem dei o meu primeiro beijo e com quem sonhei casar e ter filhos, e a realidade mostrava-me agora a falta de um dente na sua boca! Depois de uma troca de palavras que incluem as perguntas básicas do tipo “o que tens feito?”, “onde tens andado?” e “trabalhas em que área?”, eis que chega a pergunta mas temível por qualquer solteira trintona... “Então e já casaste?'” Expliquei que não, que não tenho marido, companheiro, namorado, nem nenhuma outra ligação de compromisso a um homem. Ele por sua vez resolveu apontar para o seu carro estacionado ao lado do meu e dizer que a mulher e os filhos lá estavam. Não deu para evitar a chuva miudinha e lá fui cumprimentar a 'família feliz'. A mulher com cara de frete gritava a plenos pulmões para a criancinha mais velha parar de saltar. O bebé chorava ranhoso enquanto se contorcia na cadeirinha. Depois de me apresentar como 'a minha primeira namorada' eu fui observada de forma fulminante por uma personagem estranhíssima com o cabelo preso no alto da cabeça com uma mola cor-de-rosa e uma camisola cheia de borboto. Esquivei-me dali o mais rapidamemente que pude e até me esqueci de comprar o pão. Na minha cabeça só ecoava o provérbio 'antes só do que mal acompanhada'.

20 de Novembro de 2010

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