domingo, 7 de novembro de 2010

Escrava da Moda

Não é preciso ser uma 'expert' em Moda para saber que uns saltos altos fazem qualquer mulher mais elegante, por isso, e porque os meus 1,65 centímetros não fazem de mim um exemplar feminino requisitado pelas passerelles, desde os 17 anos que no meu vocabulário mais utilizado, associadas à palavra “sapatos” surgem sempre as palavras “saltos” e “altos”. Com tacão dos sete aos 15 centímetros tenho modelos para todos os gostos, géneros e feitios e uma sapateira que não tem fim. Por isso, naquele dia quando saí de casa pela manhã para mais uma jornada de trabalho, escolhi um par de sandálias castanhas com saltos de 12 centímetros a fazer 'pandan' com a malinha. O bater do salto na calçada provoca sempre o virar de algumas cabeças masculinas, uns piropos e uns assobios, mas nesse dia provocou também uma apreciação feminina. Já atrasada ultrapassei no passeio a toda a velocidade uma senhora sexagenária que passeava um cão daqueles bem pirosos com muito pelo e um lacinho cor de rosa na cabeça. Entre o trepidar dos meus saltos no chão e o barulho dos carros na estrada pareceu-me ouvir a senhora resmungar algo. Olhei para trás e ela, com um ar de quem me iria bater a qualquer momento, atirou: “Escrava da Moda! Sim, estou a falar consigo. Acha que isso são modos de sair à rua?” Ainda abismada com o que se estava a passar olhei para trás na esperança de que ela estivesse a insultar outra pessoa que não eu. Mas não havia ninguém, por isso perguntei: “Está a falar comigo?” Ela, que de repente aos meus olhos me pareceu a bruxa malvada das histórias de encantar, rosnou: “Esses saltos hão-de matá-la. Um dia parte uma perna e nem percebe porquê. Quando chegar à minha idade não vai conseguir andar. É uma escrava da Moda.” Pensei em virar costas e continuar a andar, afinal a senhora tinha mais de 70 anos e talvez tivesse apanhado muito sol na cabeça. Mas a minha avó tem a idade dela e na juventude também usou saltos vertiginosos e lembro-me de ver fotografias dela lindas com as suas longas pernas. Por isso ripostei enervadíssima: “Quando tiver a sua idade estarei num lar a coser meias e não a chatear desconhecidas na rua. Além disso, minha senhora, no seu tempo alguém se deu ao trabalho de lhe arranjar marido, mas agora o mercado está mau e se uma mulher não usar de todos os trunfos acabará encalhada para o resto da vida. Escrava da Moda de repente soou-me a elogio. Passe bem. Ah, e já agora tire esse laço ridículo da cabeça do cão que está com um ar absolutamente gay!”
Dias depois dei uma queda aparatosa nas escadas de minha casa, torci um pé e ando desde então com umas sabrinas bem rasas. Cara senhora, diga o que quiser da boca para fora, mas por favor não me rogue mais pragas! Obrigada.

21 de Agosto de 2010

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