Já não bastava ter de carregar diariamente o peso de ser uma solteirona com 30 anos, ainda tenho de ser lembrada a todo o momento dessa realidade. Como qualquer solteira com uma vida profissional bastante activa, também eu tenho muito pouco tempo para as lides domésticas. Cozinhar é daquelas palavras que só em raras excepções faz parte do meu vocabulário. Não é que não saiba fazê-lo, até o faço muito bem. Mas, por um lado tenho pouco tempo, e por outro exagero invariavelmente na dose para uma pessoa e acabo por ter de jantar a mesma comida durante uma semana. Por isso, e para me poupar a essa situação, decidi um dia destes, de pois de um dia eaxustivo de trabalho, comprar meio frango assado. Repito: MEIO frango assado... Estava eu na fila de um supermercado concorrido quando empregado - com uma fisionomia a fugir para o obeso - gritou o número da minha senha. “Boa noite. Meio frango assado, cortado aos pedacinhos, se faz favor”, disse eu com um sorriso. Ele simpaticamente respondeu: “Não vendemos metades. Mas este frango é muito bom. Aliás, temos uma promoção fantástica. Na compra de dois frangos, só paga o preço de um frango e meio.” Dei por mim a fazer contas, logo eu que sou uma mulher de letras... Ora, portanto, não vendem meio frango, mas oferecem meio frango, se levar comida para um mês? Ou seja se levar dois? Tentei explicar esta situação ao empregado simpático e quase obeso, mas ele limitou-se a rir e achou por bem apresentar-me o chefe de secção que entretanto passava pelo balcão. O chefe de secção, que mais parecia trabalhar numa repartição de finanças, repetiu o discurso do “leve um frango e meio que nós oferecemos uma metade”. Eu já enervada, com a conversa dos frangos soltei aos berros, com a voz a bater no falsete e um olhar psicopata: “Caros vendedores de frango assado, tenho 30 anos, sou solteira e há meses que não coloco a mesa de jantar, por uma simples razão: Não tenho companhia! Como em pé, de costas para o lava-loiça, ou de pernas cruzadas com um tabuleiro no colo em frente à televisão para não me sentir tão sozinha. Por isso, obrigada pela oferta do 'frango e meio mais metade', mas não me apetece passar 15 dias – que era o tempo que eu levaria a consumir duas aves desse tamanho – a abrir o frigorífico e a consciencializar-me ainda mais do meu estado civil. Desisto do frango. Vou comprar comida chinesa só para uma pessoa. Obrigada!” E pronto, acabei a noite a jantar com dois pauzinhos...
07 de Agosto de 2010
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